O fantástico mundo de Brown
É tarde na ensolarada Salvador, entre becos e ruelas e com ajuda do nosso guia e motorista de luxo, o cientista social Evandro Calisto, caminhamos sem saber se o carro iria ou não chegar ao destino final, o Gueto Square, berço da Timbalada e de seu criador, o multiartista Carlinhos Brown.
POR MAURICIO PESTANA | FOTOS RAFAEL CUSATO
O silêncio do lugar só é quebrado quando algumas crianças passam correndo atrás de pipas, com a alegria própria da idade. Para nos receber, uma das assessoras do astro pede que esperemos um pouco, até que Brown chegue ao local.
Quando o percursionista, compositor, cantor e técnico do The Voice Brasil adentra o local, eletrizante e vibrante como sua música, a calma cessa. O furacão Brown chega agitando e já disparando falas e pensamentos, nos dando a tônica de como seria a entrevista. Invertendo os papéis, perguntou se gostaríamos de fazer as fotos primeiro, e sem titubear, ele mesmo respondeu: "Façamos tudo ao mesmo tempo, vamos conversando enquanto tiram as fotos". Então demos início à entrevista, inspirados pela emoção de estar no lar de Brown e pelas crianças que corriam sorridentes.
Perguntamos a ele se tinha saudade da Salvador de sua infância e adolescência, sua resposta veio numa frase emblemática. "Tenho saudades do futuro que precisamos dar para essas crianças". E continuou: "Eu nasci circundado de terreiros, nasci na Roça do Candeal. O Candeal surgiu entre um quilombo liberto e terras de negros que vieram recomprar suas irmãs, na época da escravidão. Eles diziam que não queriam ver troncos ali, muito menos escravos. Essa área do Candeal fazia parte do tráfico escravagista, e dentro dessa história toda eu fui convivendo com essa Bahia, mas de uma forma muito pacífica, e depois eu fui vendo o bairro se modificar e se reestruturar a cada dia. Fui procurar saber por que contam essa história. É porque as mães de santo estavam reclamando tanto, que alguns babalorixás já não tinham mais fé no terreiro. Enfim, são coisas da minha infância."
Estamos falando de 40, quase 50 anos atrás. Uma Salvador bastante rural ainda.
Sim, não tinha todo esse desenvolvimento metropolitano e também estava sediada em uma cultura muito bem embasada, mas também refém, porque se acenava com desejo de progresso futuro enquanto acentuava-se a dispersão social. Muita gente bêbada nas ruas, pessoas sem trabalho... Muitas sentiam até vergonha. Era uma crise que a indústria trazia para a gente. Estávamos vindo de poucas décadas de libertação escravagista, não posso dizer que sinto saudades disso. O governo fazia propaganda para as pessoas deixarem o interior rumo à cidade, dizendo que teriam mais conforto. Essa campanha gerou um inchaço populacional, gerou desassistência. As escolas públicas perderam qualidade, pois não conseguiam atender aquela demanda.
E na fase posterior à sua adolescência, esse quadro já havia mudado?
Não muito, essas lembranças que eu tenho da infância se perduraram também na adolescência. Com o inchaço populacional, os pequenos ônibus eram lotados e dividiam espaço com cavalos, carroças e vendedores ambulantes cantando no meio das ruas. Também me lembro que havia um poderio estrangeiro muito forte na Bahia, tudo era dominado por estrangeiros, eles ditavam a realidade e se comportavam como se a Bahia fosse um balneário. Não queriam ouvir o terreiro ou uma casa de protestantes cantando, ou seja, não queriam ver ninguém cantando nem batucando, portanto, repito, não tenho saudade dessa Bahia. Como eu vou ter saudade da escravidão e da pobreza?
No seu primeiro disco "Alfagamabetizado", você tinha uma explicação muito interessante para falar do que é ser alfabetizado. Você considera a educação formal um dos grandes desafios do Brasil?
O ser alfagamabetizado é aquele cara que não frequentou a escola, mas nem por isso perdeu o estímulo de aprender. O tempo de aprender de cada um varia, claro que se você tem uma formação básica, se você sabe ler, tudo fica mais fácil. Mas não se pode ter vergonha de pedir auxílio, pedir ajuda aos filhos que estão na escola. Sem isso, as coisas são muito mais difíceis, muito duras. A minha avó não sabia ler, ela não seria capaz de pegar um ônibus hoje. O "Alfagamabetizado" mostrava que estava contra a corrente de toda uma cadeia. Muitas vezes soa arrogante, mas eu sou poeta. Sentir não tem nada a ver com poesia, arrumar letras não tem nada a ver com poesia. A poesia não tem que vir de ambiente acadêmico, quando você expõe isso, mata no outro a possibilidade de se expressar com a sua letra, que é o que Itamar Assunção já cobrava na música dele.
"PASSAR FOME É UMA DAS SITUAÇÕES MAIS ÁRDUAS E DURAS, E ACHO QUE TODO MUNDO DEVERIA TENTAR, UM DIA, SENTIR FOME POR ALGUMAS HORAS, PARA PODER COMPREENDER".
Lembrar do Itamar Assunção é sempre bom. Quem inspirou e lhe inspira até hoje a fazer essa música diferenciada que tem caracterizado sua obra?
Começou com negros fortes que eram muito respeitados na comunidade: Simonal e Agnaldo Timóteo. Inclusive essa coisa minha de usar óculos foi imitando o Timóteo, porque aqui tinha um cara chamado Reite que cantava e imitava ele, era parecido e tinha o cabelo curtinho igual. Um dia ele chegou para mim e disse: "Você está indo bem nesse negócio de artista, só falta um óculos, faça igual Timóteo". E eu passei a usar os óculos. No Itamar, sempre admirei aquele jeito autêntico dele. Ele era a cara dos negros do Brasil, sobretudo dos nordestinos, que muitas vezes queriam vestir capas, mas não entendiam que em São Paulo faz mais frio que aqui. Adorava aquele estilo dele, porque era contemporâneo a sua época, ele era tipo o Boosty Collins, do Funkadelic, ou Sly & The Family Stone. Tinha um comportamento em comum com esses grupos, que estavam estourando no mundo todo, era o que se ouvia, apesar de que tinha muita gente na época que não entendia a discoteca e não percebia como aquilo era bom, houve até protesto contra a disco music.
Por falar em protestos, o que você achou das últimas manifestações que tomaram as ruas e pararam o país?
Poxa, do que essa galera está reclamando? Tem asfalto, tem ônibus, tem coisas na rua que eu nunca vi ter. No meu tempo era status ter uma latrina na frente da porta, porque o pessoal mais pobre fazia as necessidades em pinico e jogava no mato. Uns jogavam no telhado dos vizinhos, era uma desordem, não havia saneamento. Isso porque eu nem falei de passar fome... Passar fome é uma das situações mais árduas e duras, e acho que todo mundo deveria tentar, um dia, sentir fome por algumas horas, para poder compreender. Até mesmo pessoas violentas, se nunca passaram por isso, não têm uma compreensão real do mundo. Ser violento de barriga cheia é fácil.
Então qual o motivo destas manifestações, no seu ponto de vista?
A individualidade chegou a tal ponto que está levando uma pátria junto. Perdemos a coletividade, tudo o que se fala na internet se acredita, e o pior, o que eu acho mais insano é que a internet, que é um objeto maravilhoso de comunicação, vende os nossos conteúdos e negocia entre nós mesmos. Steve Jobs deu a frase "eu fiz uma coisa aqui para salvar a música", na verdade esse cara acabou com a música, é isso que as pessoas têm que dizer. É gênio? Sim, mas não encontrou caminhos óbvios e claros para que as pessoas respeitassem o direito dos outros.
Mas não é uma contradição dizer que a tecnologia é antieconômica?
Parte da crise econômica mundial é a internet. As coisas grátis não tem valor. Eu quero dizer que eu baixo aqui no tablet e eu preciso de não sei quantos views... Olha o que os grupos fazem, cobram em dólar e nos pagam avos, quando que isso vai ter um ramo de regularização? Não somos nós que mandamos, essa cadeia de internet não pertence ao Brasil, ela é liderada por grupos externos. Então o que é isso? Somos todos consumidores de pobreza. Quando consumimos um café tem pobreza ali, nós somos apenas consumidores de pobreza perdidos, no sentido de que o homem ainda está buscando revolução. Então o alfagamabetizado não pensa em revolução, ele só pensa em evoluir, em ajudar o outro, em crescimento, em coisas boas, e isso não é submissão, não, isso é saber que nós estamos em um mundo de expiação, onde os problemas existem, e é saber que nós somos capazes de resolvê-los, mas não com violência, não com enganos.
Você fala da violência tal qual vimos nos protestos?
Quando eu falo em violência, não é apenas a armada, digo todos os tipos de violência que são impostas ao cidadão, desde um sanduíche que parece maravilhoso pela televisão para quem não tem o que comer, até o fato de um cara ter perdido a humanidade a ponto de passar na rua e não levantar o outro caído. O medo de estender a mão a uma pessoa caída na rua e pegar uma doença contagiosa é falta de humanidade. São todas essas coisas que, às vezes, nos revoltam. Os músicos ficam calados porque têm medo de se expor. Acabou a ditadura? Mentira, pelo menos para artistas existe uma ditadura, a gente não pode ter opinião, não pode mais nem dizer nem fazer nada que vira um problema, está chato ser artista. É preciso ter um entendimento que a cultura negra chancela a miscigenação do Brasil, e que nós precisamos nos misturar. Tem uma coisa toda holística, mística em nossa cultura, como saber o significado de uma segunda-feira ou vestir branco. É um legado da África que não podemos esquecer.
"NÃO ACHO QUE O BARRA-ONDINA SEJA UM MOVIMENTO EXCLUDENTE, OS LÍDERES DO CARNAVAL É QUE NÃO TÊM SAPIÊNCIA SUFICIENTE PARA JUNTAR O POVO"
Mas quando se mistura muito, não corremos o risco de também perder a essência?
Pelo contrário, misturar é pegar todo esse acervo de memória dentro da cultura oral e refazer uma base nesses lugares que perderam a memória por causa das guerras ou catástrofes. Por exemplo, o Haiti, que perdeu tudo no terremoto - conheço ritmos haitianos ótimos, tenho a obrigação de repassar isso. Aqui no Brasil, as pessoas consideram sofisticadas as elucubrações sobre temas que não resultam em nada, mas sofisticada é a nossa cultura miscigenada. Ainda tem gente que nos vê como escravos, mas somos uma dinastia e sequer usamos nossas forças. Devemos usá-la para mostrar que esse país realmente é diferente.
Voltando à música, o que você acha dessa explosão do funk e como você define essa modalidade musical?
O funk é congo no Brasil sem João Gilberto, sem Caetano, sem Gil, sem mim. O congo é a origem mantenedora da música que nos diz como as coisas são. Os meninos só misturam tudo, fazem passinho, dançam. É a cultura congolesa no Brasil, que não deixa de ser bantu. Como estou falando para a Raça, uma revista especifica, é de coração, e não estou me referindo a preconceito ou mentira. É atitude, ação, busca de caminhos para se compreender mais.
Outro problema da sociedade é a intolerância religiosa. Como você lida com isso?
Hoje tem uma discussão enorme entre as questões religiosas, entre terreiro e os crentes; Martin Luther King era os dois, ou mais, porque ele também era mulçumano, crente, candomblé, era tudo. Nós negros somos místicos e temos que nos respeitar. Não adianta eu ser negro e falar mal do terreiro. Deus se revela para cada um de uma forma, em um determinado dia ou tempo, e se a sua espiritualidade quiser mudar, ela pode, pois você não a controla, ela é quem te lidera. É hora de acabar com essas discussões nas comunidades, vamos viver o que há para viver.
Brown, a Timbalada veio depois do samba-reggae do Neguinho do Samba?
Isso é um equívoco, informação errada plantada pelo Nelson Mota. Eu sou de 79, foi quando comecei no carnaval da Bahia, junto com o Gerônimo. Usei a palavra "pelô" numa música feita para o Jorginho. O trabalho de Neguinho é ineditíssimo, mas nem ele chamava de samba-reggae, esse nome veio quando criei a Timbalada com um desejo único de misturar ritmos. Dentro da Timbalada tem uma média de 120 ritmos ou levadas. Então houve uma confusão, porque era uma construção contemporânea. A história está errada, um monte de gente se meteu na axé music para atrapalhar nossa história.
"TODO MUNDO PENSA QUE É MUITO FÁCIL ME MACHUCAR, MAS EU SOU NARIZ DE BORRACHA, E SE É DE BORRACHA PODE BATER"
E aí começa a história de quem é o pai da criança?
Sem dúvidas, mas não queremos ser o pai da criança, nós somos. E somos um movimento de mais de trinta anos, não queremos ninguém dizendo o que nós somos, porque aparece um bocado de gente querendo ficar com o lucro, ninguém fica com o prejuízo, só querem os acertos. Neguinho do Samba foi o maior autor rítmico do século passado, com o Olodum. Eu sou apenas um compositor. E nós somos contemporâneos em um movimento de percussão que foi avacalhado por interesses comerciais. O samba-reggae continua no auge, agora tira ele do carnaval, do trio elétrico para ver se vai ter artista, se vai ter carnaval, é essa defesa que eu faço.
Há algum tempo, fala-se sobre uma crise no carnaval baiano, uma briga entre o circuito Barra-Ondina e o Castro-Alves. Para o presidente do Olodum, será a guetização oficial do carnaval da Bahia. Como você reage a essas críticas?
Não acho que o Barra-Ondina seja um movimento excludente, os líderes do carnaval é que não têm sapiência suficiente para juntar o povo. João Jorge é um cara que eu tenho carinho e respeito, mas ele mora em Brasília há muito tempo. Todas as reuniões para as quais eu o chamo, no Afródromo, ele não pode vir, ou tem que sair. Quem está na frente é o Ilê Aiyê, esse sim um bloco afro pioneiro. O João Jorge perdeu essa liderança há muito tempo, isso não significa que ele deixou de ser um líder, mas não está se fazendo presente na comunidade. Estamos pedindo a ele que tenha a compreensão que o Olodum é nosso, como a Timbalada é nossa, como o Filhos de Gandhy é nosso. Isso tudo já é da cultura... Precisamos nos juntar, e não nos excluir. Posso responder isso aqui na Raça, estou falando para a minha comunidade.
O que lhe moveu a criar o Afródromo?
fazer o que quisermos, como ir para outro lugar. João Jorge não fez isso com a marca importante do Olodum? É que as pessoas dão espaço para ele falar besteira. Onde Ivete Sangalo atrapalha a gente? Eu nunca falei que isso nos atrapalha, até parece que não somos todos irmãos. Pergunte se ele quer se juntar com a gente, ele não quer. Ele diz que o Olodum está em outra situação, então não pode falar de racismo e preconceito, porque também não mantém as suas origens, está baseado em um passado, não avança, e isso é desgastante para todo mundo. Meu irmão, aproveite que estou dando essa resposta meio emocionada e venha para junto, venha dizer as suas opiniões junto de toda a liderança. O Olodum é maior que o Ilê Aiyê, maior que todos os outros? Não, então vem participar e ver os desejos do povo. Estou de saco cheio de demagogia intelectual, quero ação.
Como ficará a questão financeira do Afródromo?
Eu não sei, só sei que investi um milhão e oitocentos mil do meu bolso no Afródromo. Sou bravo, todo mundo pensa que é muito fácil me machucar, mas eu sou nariz de borracha, e se é de borracha pode bater. Não estou fazendo nada para prejudicar ninguém, e sim para elevar. Não sou de dar números, mas Carlos Uniesta deu trezentos mil euros para o projeto e saiu no mundo inteiro. Eu sou investidor cultural para o coletivo, o Afródromo vai existir e eu não tenho bloco lá fazendo negócio. Vou pagar a missão que meu santo me deu, que meus mestres me prepararam. Aceite quem quiser. Eu sou o cacique. E acabou. Eu estou há cinco anos tentando fazer um negócio aqui para proteger as crianças. É muito fácil chegar na internet hoje e enchê-la de besteiras, venha ver, venha apreciar, venha viver. Leve um dia dentro de uma comunidade dessas, passe um dia dentro de uma cadeia para saber o que nós passamos. Quem acha que estava perdendo vai chorar quando vir as coisas bonitas que poderão acontecer.
Quando Salvador terá um prefeito negro, e a Bahia um governador?
Engraçado que eu tinha essa esperança em João Jorge, porque ser politico é também um dom. Eu não tenho nenhuma capacidade para isso e não me interessa. Ser político é complicado, costumo dizer que é um cargo frouxo, porque o cara está errado até quando não abre a boca. Quem quer isso? Aos meus filhos, peço apenas que estudem. O país está saindo às ruas gritando educação, mas o que realmente precisamos é de formação, educação vem de berço, é trato com as pessoas. Formação literária, ler bem, ter acesso a livros, é outra coisa. Se formos falar de educação, o negócio está ruim, tem muita gente mal educada destratando os outros por aí. Formação é algo que o país precisa há muito tempo, e se a escola não consegue atender, nós podemos dentro da oralidade e dentro desses projetos que a gente desenvolve nas comunidades retransmitir conhecimentos.
O que você acha do Brasil atual?
O Brasil é um país brilhante e que precisa ser visto dessa forma. E a Bahia é um lugar que só precisa ter mais autoconfiança. Aqui fomos formatados para sermos pessoas apaziguadoras, dizem que é só humildade, mas eu sei que não é isso. O país começou aqui! Nós temos um acervo histórico gigantesco, os grandes artistas carnavalescos em sua grande maioria estão aqui, nós temos uma história enorme, com o tropicalismo e tudo.
Acreditamos muito na Bahia também.
Eu espero muito que a Bahia tome autenticidade contra alguém que implante aqui canais de comunicação que repitam para o mundo inteiro o que sai nas matérias sobre o carnaval. Fico com vergonha porque isso não é Brasil. A gente quer falar da autenticidade da cultura, do real, nós vivemos cultura real. Agora o ano inteiro você vê gringo vindo para cá e trazendo suas culturas... Você começou a entrevista falando do disco "Alfagamabetizado", que é um disco para gringo ouvir. Sabe por que eu faço disco pra eles? Porque a gente só ouve os gringos, e eles ficam esperando coisas nossas pra ouvir. Aprendi isso muito cedo.
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